Brasileiros em Portugal

Por que tudo fecha durante as férias em Portugal?

férias em Portugal
Juliana Chatti Iorio

Essa é uma das perguntas que mais nos fazemos quando chegamos em Portugal e nos deparamos com tudo fechado durante o mês de Agosto.

Até entendermos que o comércio em Portugal é feito, maioritariamente, de microempresas familiares, e que para as família passarem as férias juntas precisam fechar os estabelecimentos, demora… Até mesmo porque, para quem vem de grandes cidades no Brasil, isso não existe. Ou, pelo menos, é muito raro de se ver…

Portanto, os hábitos e costumes da cultura portuguesa ainda continuam a estranhar muitos imigrantes e turistas, principalmente aqueles que julgam conhecer bem a cultura deste país, como é o caso dos brasileiros.

Esses dias, em uma comunidade de brasileiros em Lisboa no Facebook, uma brasileira perguntou o que os participantes achavam ser mais diferente em Portugal, em comparação com o Brasil, e as respostas foram as mais variadas possíveis!

Desde diferenças concretas nos hábitos alimentares, como o acompanhamento nas refeições ser sempre a batata e não o arroz, como a pastelaria ser a base de “doce d´ovos” ou se tomar sopa em todas as refeições; até diferenças de costumes de higiene, como o palitar os dentes à mesa e não escovar os dentes após cada refeição.

Entretanto, enquanto uns elogiavam a educação dos portugueses, dizendo que surpreenderam-se positivamente com os carros que param na faixa de peões (pedestres) por exemplo, outros reclamavam da maneira com que se conduz (dirige) em Portugal e do facto dos portugueses serem “ranzinzas” e preconceituosos.

Opiniões a parte, foi muito interessante perceber como pessoas de uma mesma nacionalidade conseguem ter experiências tão distintas estando num mesmo país, e como os estranhamentos são tão importantes quando queremos entender as diferenças culturais desse país.

Mas o que me chamou mais atenção neste post foi o comentário de uma das participantes que disse:

“… convivendo com eles, entendi que aquele modo “grosseiro” de se comportar era entre eles próprios também… Então eu tinha duas opções, voltar pra casa e escolher um lugar em que eu me adaptasse melhor, ou me adequar. Escolhi a primeira opção”.

É isso! Mais uma vez o que está em causa não é se o português é grosseiro ou não, mas a nossa capacidade de aceitar que o relacionamento em Portugal é diferente do Brasil.

É lógico que sempre podemos questionar as diferenças e percebê-las de forma mais positiva ou negativa. Mas o que nos faz permanecer no país (quando temos escolha) é a capacidade que temos de aceitar as diferenças e relevar aquilo que consideramos ser mais negativo.

E esse parêntesis sobre “ter-se escolha” é muito importante, porque nem todos os que emigram têm condições de retornarem, se não gostarem da experiência.

Quando eu cheguei em Portugal questionava tudo o que era diferente do Brasil, sem pensar se era melhor ou pior.

Algumas coisas simplesmente me incomodavam porque eram diferentes daquilo com que eu estava acostumada.

Por exemplo, me irritava não haver ralo por toda a casa, para eu poder jogar água no chão, e puxar com o rodo! Eu não estava habituada a usar uma esfregona!

Eu achava muito estranho ter que pendurar as roupas lavadas do lado de fora das janelas. Como assim? Além de feio, as roupas ficavam sujas!

E comer sopa, inclusive no verão? Mas onde estavam as saladas? Contudo, com o tempo, além de aceitar esses hábitos, fui os incorporando ao meu modo de vida. Não é algo que eu tenha feito de maneira consciente, mas o facto é que hoje, quando vou ao Brasil, sinto falta da sopa mesmo estando um calor de quarenta graus!

Hoje acho muito mais democrático a possibilidade de se poder fumar numa esplanada em Portugal, e me irrita profundamente não se poder fumar em lugar nenhum no Brasil.

Hoje sei que corro risco de ser atropelada no Brasil, quando atravesso na faixa de pedestre sem me certificar se o carro irá mesmo parar. Ou seja, hoje, algumas coisas que me irritavam em Portugal, agora me irritam no Brasil. Acho que todo imigrante depois de muito tempo vivendo em outro país, acaba por incorporar as diferenças… É como se diz por cá: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se!”.

Mas eu continuo a achar que faz mais sentido a casa ter uma “área de serviço”, como no Brasil, onde colocamos as máquinas de lavar e secar roupa, sem falar no tanque e no varal (estendal), do que ter essas máquinas na cozinha e continuar a estender as roupas à janela!

Eu continuo a achar estranho todo mundo querer tirar férias em Agosto (apesar de saber que isso tem a ver com o clima – ser verão em Portugal nesta época do ano – e com as férias escolares), e muitos lugares, principalmente restaurantes em locais turísticos, fecharem durante todo o mês de Agosto!

Não vejo muito lógica, mesmo em microempresas familiares, fecharem no período em que poderiam ter mais lucro devido ao turismo… Mas, se calhar, eles é que têm razão, pois dão mais importância a qualidade de vida, em passar tempo com a família, do que em ganhar dinheiro…

De qualquer modo, e plagiando o cantor português Rui Veloso, hoje entre mim e Portugal, “é muito mais o que nos une, do que aquilo que nos separa”.

Até breve!

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Sobre o autor

Juliana Chatti Iorio

Juliana Chatti Iorio

Jornalista, Doutoranda em Migrações pelo IGOT - Univ. Lisboa e com publicações no Blog brasileportugal.blogspot.com