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A Princesa que o mundo esqueceu!

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André Araujo
Escrito por André Araujo

Existem pessoas que vem ao mundo para fazer a diferença, dotadas de carisma e inteligência, rompem barreiras e atravessam fronteiras se destacando em alguma área.

Em alguns países da África, a mulher ainda vive uma situação precária no que se refere a direitos igualitários, entretanto a princesa de Uganda, Elizabeth of Toro mostrou ser uma mulher a frente do seu tempo, fez história, superou preconceitos e obstáculos e se tornou símbolo de uma nação, que a vê como um exemplo para as mulheres e suas futuras gerações.

Nascida em Uganda em 1936, pertencente ao reino de Toro, a jovem princesa Elizabeth era bela, inteligente e cativante e pode ser considerada também uma pioneira em diversas áreas em que atuou, sem talvez nunca ter recebido o devido reconhecimento pela sua obra, pela sua estória de vida.

Elizabeth of Toro foi advogada, top-model, Ministra das Relações Exteriores, atriz e Embaixadora da ONU, além de passagens pelo alto comissionado da Nigéria e Alemanha.

Está entre as 3 únicas mulheres africanas a cursar Direito na prestigiada universidade de Cambridge na Inglaterra nos anos 1960, tendo sido a única aluna negra do curso. Sentia na pele o peso do preconceito. Tornou-se a primeira advogada feminina de Uganda, além de ter sido considerada a mulher mais bela do país também.

A convite de uma amiga que pertencia a uma família tradicional da Inglaterra, aprincesa participa de um desfile beneficente como modelo, sem nunca ter subido em uma passarela antes.

O sucesso foi imediato, agências do mundo inteiro queriam aquela jovem bela negra de traços suaves em seus editoriais de moda.

No final dos anos 60, a princesa de Toro já era uma top model de sucesso, vivendo entre Nova York, Milão, Londres e Paris, estampando publicações como Vogue, Ebony e Happer’s Bazzar.

Elizabeth havia declarado que não queria se tornar modelo mas viu a chance de promover Uganda para o mundo através da moda, através de sua figura.

Foi a primeira modelo com um diploma, fato que chamava atenção dos agentes. Foi também a primeira negra a ser capa da revista Harper’s Bazzar em 1969.

A Vogue britânica dedicou uma matéria de 4 páginas a ela, chamando-a de A Rainha Sheba.

A princesa circulava pela alta sociedade da época, desfilou ao lado da modelo e atriz Lauren Hutton, tornou-se amiga pessoal da ex-primeira dama dos USA, Jacqueline Kennedy Onassis, foi ela inclusive que impulsionou a carreira como modelo da princesa na terra do tio Sam.

Uganda ganhava projeção através da princesa que não só mostrava a moda africana como também a cultura de um país que passaria por momentos dificeis nos anos seguintes. Tida como uma mulher simples, era bem relacionada, sendo próxima do idolatrado presidente queniano Jomo Kenyatta.

Morando em New York no início dos anos 1970, Elizabeth recebe uma proposta para um ensaio nu por uma soma valiosa, prontamente ela recusa e ao ser questionada pelo agente se era uma modelo de fato ou não, eis que a princesa responde: “Sou uma modelo, mas um dia eu irei voltar para casa“.

Nessa época, ela faz aulas de arte-dramática e atua em alguns filmes rodados na Nigéria da obra do romancista nigeriano Chinua Achebe, chamado “Things Fall Apart”.

Ainda no íncio dos anos 1970, o ditador Idi Amin Dada toma o poder em Uganda e a convida para ser Ministra das Relações Exteriores, sendo a primeira mulher assumir um cargo como este. A princesa de Toro deixa as passarelas e migra para a política.

Educada e inteligente, ela realiza um trabalho primoroso na política de Uganda, visando melhorar a imagem do país após o golpe do ditador, porém as atitudes daprincesa ofuscam o ego de Idi Amim que era um fracasso em se tratando de discursos ou em coletivas de imprensa.

Ao recusar o convite de Idi Amin Dada para ser mais uma de suas várias esposas, ela é demitida do cargo durante um comunicado ao vivo na TV,  onde o ditador a acusou de manter relações sexuais com um homem branco em um banheiro de aeroporto em Paris. O boato era rísivel, obviamente ninguém acreditou mas como Idi Amin detinha o poder e era conhecido por ser violento, aprincesa foi alertada que o ditador tinha planos de assassina-la.

Ela foge para o Quênia, atravessando a fronteira a pé pela selva, se passando por uma nativa comum, até conseguir chegar em segurança no outro país e após isso procurar exílio nos USA. Dificil acreditar que a modelo que um dia foi capa das principais publicações de moda, estava vivendo como foragida.

Em 1981, ela se casa com um piloto de avião também pertencente a uma família Real e em 1983, ela lança sua primeira autobiografia que se tornou um best-seller, a segunda bio viria em 1989.

Devido ao sucesso de seu livro, ela é convidada em 1984 pela Columbia Pictures para atuar no filme de fantasia “Sheena A Rainha da Selva“. Anos depois, a princesa admitiu que o roteiro do filme era ruim mas que sua personagem tinha similaridades com a sua vida real, ou seja ambas tinham sido educadas para serem líderes de um povo, de uma nação.

O papel no cinema deu notoriedade a atriz, que só aparecia antes nos jornais em assuntos envolvendo política.

Em 1986, ela é nomeada Embaixadora da ONU de Uganda para os USA, tendo realizado o primeiro encontro entre um presidente norte americano e um africano em 1987, fato este que melhorou muito a relação entre os dois países.

Em 1988, ela renuncia ao cargo após a morte do marido em um acidente aéreo, um ano depois, ela participa do famoso talk show da apresentadora Oprah Winfrey sobre mulheres oriundas de família Real.

Nos anos 1990, ela passa a se dedicar a causas humanitárias.

Aos 80 anos, a princesa Elizabeth of Toro ainda é uma mulher influente em Uganda, vive em Fort Portal, dedicando-se a projetos que envolvem o emponderamento de mulheres, além de ser conselheira do príncipe de Uganda, seu sobrinho.

A princesa que o mundo esqueceu, não caiu totalmente no ostracismo, recentemente, a atriz queniana Lupita Nyong´o citou a princesa Elizabeth of Toro em um evento no tapete vermelho como sendo uma fonte de inspiração para ela.

Em 2016, a princesa foi homenageada pelo estilista Zac Posen (https://www.youtube.com/watch?v=d2tE-4fh3js), chamando atenção da mídia para a princesa que entrou pra história não só pela beleza, mas pela inteligência, e principalmente pelo pioneirismo e excelência em seus trabalhos realizados.

Elizabeth já declarou que gostaria que a sua estória se tornasse um filme ou documentário, infelizmente isso ainda não ocorreu, ela nem mesmo foi citada na cinebiografia sobre Idi Amin Dada intitulado “O Último Rei da Escócia“, mesmo tendo convivido próximo ao ditador e sendo parte da história de Uganda.

Vídeo em homenagem a princesa:

Matérias sobre ela: New African Magazine, NewVision e em Popsugar.

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Conteúdo e Imagem via André Araujo

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Sobre o autor

André Araujo

André Araujo

Consultor em Turismo e Jornalista - Curte viajar para lugares comuns e incomuns, no interior do país ou exterior. Tem passagens pela América do Norte/Sul, África e Europa. Lema: Viajar enriquece mais do que alguns trocados!