Depoimentos

Acessibilidade em Portugal: Não, não é para todos

Acessibilidade em Portugal
Marta Canario
Escrito por Marta Canario

Acessibilidade em Portugal: Algo tão simples como ir trabalhar, ir ao cinema, ir jantar, dar um simples passeio. Só alguns o podem fazer.

Morei 25 anos no centro de Lisboa e, durante uma década, fi-lo sentada numa cadeira de rodas. Foram 10 anos em que, para usufruir da minha cidade, precisei quase sempre de contar com a ajuda de terceiros. Dos 15 aos 25, vali-me da força, de braços e de vontade, de quem me rodeava, para poder ter uma vida minimamente normal.

Aos 25 anos mudei-me para perto do mar. Nova cidade, mas velhos problemas. E não estou sozinha. Todos os dias oiço as mesmas queixas, vindas de quem vive a Norte ou a Sul do nosso país.

Mas a mobilidade condicionada é muito mais que uma cadeira de rodas. É a mãe e o pai que se deslocam com carrinho de bebé, é a amiga que parte uma perna, é a tia operada ao joanete, é o avô que, velhote, já não vai lá sem a sua bengala.

O nosso país está pouco preparado para situações destas. E, mais grave do que isso, está-se praticamente nas tintas para elas.

Não querendo ser injusta (bem sei que temos assistido a alguns progressos, em particular nos últimos anos), a verdade é que não vejo uma política de aposta contínua no que diz respeito às situações, temporárias ou não, de mobilidade condicionada. E não, não pode ser o suficiente termos quatro ou cinco avenidas com passeios mais cómodos. Precisamos de transportes adaptados, de estabelecimentos comerciais acessíveis. E, estes, continuam a ser muito poucos.

Perguntar-me-ão: mas existe alguma lei que regule estes temas? Existe. Mas ninguém fiscaliza, por isso, tem sido praticamente inútil.

E o maior problema? Falta visão. Feitas as contas, 10% da população portuguesa tem algum tipo de limitação. Estamos, portanto, a falar de 1 milhão de pessoas que estão tantas vezes impedidas de trabalhar, ir ao cinema, jantar fora ou dar um simples passeio. São muitas. Mas, se juntarmos a isso uma gravidez, um carrinho de bebé, uma muleta ou uma bengala, o número muda e de forma drástica.

Enquanto o tema da mobilidade condicionada for encarado como uma questão que diz respeito apenas a uma minoria, não iremos longe. Mas quando passarmos todos a exigir condições universais, aí sim, talvez alguma coisa mude, e talvez passemos a ser um país verdadeiramente inclusivo.

Até mais!

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Sobre o autor

Marta Canario

Marta Canario

Marta Guimarães Canário tem 42 anos e trabalha em comunicação há quase 20. Da vida deseja apenas que lhe traga saúde e paz. Vive para aquilo que a move: família, amigos e trabalho. Não dispensa um serão à lareira acompanhada de um charuto e de um cálice de vinho do Porto. Gosta de animais. E do Sporting. E de bifes com batatas fritas. E de Coca-Cola. E de viver. Um dia de cada vez. Mas isso, ainda está a aprender. É autora d’O Blog da Canária e do livro “Ser Feliz é Uma Escolha”, este último lançado em março de 2016, onde partilha com o mundo a sua experiência de vida e alguns dos momentos que mais a marcaram.