“Hoje faz um ano que cheguei à Portugal”

No começo mais parecia que estava de férias, que passaria uns dias e logo voltaria para boa e velha vida… só que não havia mais uma casa para voltar… nem sofá, nem cama, nem panelas… tudo o que tínhamos, eu, meu marido e filha de doze anos, eram seis malas abarrotadas o máximo possível! E muitos sonhos para ainda correr atrás.

Precisava de uma casa, mobília e tudo o que se usa no dia a dia. Paciência e determinação ajudam muito numa hora dessas. Após um mês no apartamento alugado via Airbnb, tínhamos de encontrar um lugar com o máximo de mobília possível para morar. Não posso reclamar, dentro de quinze dias no Porto achei um apartamento bem legal em Santo Tirso e todo – eu disse todo – mobiliado! Ufa! Por dois anos não precisaria (e ainda não preciso) de me preocupar com isso!

Por uma junção de intuição, atitude e sorte, consegui tudo que queria e posso dizer que até um pouquinho mais… O mais importante era a vaga na Escola da Ponte para Nina, minha filha, e o resto se arranjaria. Bem, conseguimos a vaga, o transporte colegial gratuito oferecido pela prefeitura de Santo Tirso e muitas alegrias com a maravilhosa e feliz adaptação à escola e ao seu inovador projeto de ensino. Nós, mães e pais, sabemos como esse fator é importante para nossos filhos!

Ao longo deste ano me adaptei a uma nova vida, a uma nova forma de pensar, a um pique 100% diferente do que tinha no Rio. Vivo numa cidade do interior, quase, quase, Portugal profundo e apesar de não estar num grande centro, encontro aqui tudo o que preciso de supermercados a hospitais. Sinto-me feliz e tranquila… entrar e sair de casa, pegar o confortável trem (chamado por aqui de comboio) para chegar em quarenta pontuais minutos na cosmopolita cidade do Porto, ou outras cidades vizinhas e ter uma rotina sem sustos, é um luxo que Portugal nos oferece diariamente, e acreditem, isso não tem preço!

São muitas as alegrias, são muitas as saudades e o dia a dia é vivido um a um, trazendo uma nova experiência que registramos aqui, anotamos ali e, vale dizer, de vez em quando amassamos e jogamos no lixo.

As impressões e vivências, óbvio, são muito pessoais, depende de onde andamos, com quem falamos e também de como nos expressamos. Resolvi eleger alguns itens para destacar como experiências que realmente gostaria de compartilhar com vocês.

 

Idioma

Vou abrir com o idioma porque logo ao desembarcarmos num novo país é a nossa primeira impressão… assim que cheguei a Portugal, eu simplesmente não entendia nada do que me diziam! E isso era muito engraçado porque as pessoas falavam e eu pensava – Meu Deus! Eles estão falando português e eu não entendo!! – eu pedia “imensas desculpas”, perguntava novamente e na segunda ou terceira vez, já conseguia entender o que me era respondido. E essa sensação se agravava ainda mais quando falava ao telefone.

Aos poucos, fui descobrindo que banheiro é casa de banho, que ônibus é autocarro, que não entendi é não percebi… e as coisas começavam a se encaixar. O português de Portugal é muito diferente do nosso e em alguns casos os portugueses acham engraçado ou até bonitinho a nossa forma de falar. Agora consigo entender muito bem o que me dizem e como já tenho um repertório de palavras atualizadas para o português daqui, também consigo me fazer entender melhor.

 

Relação trabalho x tempo

Uma das coisas que mais admiro, mas que tantas vezes é motivo de estresse, é a tranquilidade em relação ao tempo. As lojas fecham para o almoço, o que acho um charme! Por outro lado é sempre preciso ter uma organização a mais quando temos de ir resolver problemas junto à loja de serviço de eletricidade, por exemplo. Aqui a expressão “tempo é dinheiro”’ não é tão importante. É muito usual ver as lojas fechando para férias por quinze dias no verão. Todas fecham! Não ao mesmo tempo, claro! E acreditem, não fica ninguém de plantão. E isso é super normal.

Ainda sobre o tempo – em todas as lojas que fui neste ano aqui em Portugal, há uma dedicação absoluta para quem está sendo atendido. Se você chegar à loja nesse momento, não adianta tentar chamar a atenção, e por favor, não se aborreça, pois não é pessoal! O vendedor só se voltará para você assim que o cliente que está atendendo sair e não há a menor pressa em terminar o atendimento. Aí então é a sua vez de receber atenção total e irrestrita. No começo achei meio estranho, até cheguei a pensar que a pessoa poderia me dar um alô ou algo do gênero. Confesso que me aborrecia e cheguei a sair de algumas lojas acreditando que não queriam me atender… mas comecei a ver que quando me atendiam, o tratamento dedicado a mim era o mesmo e comecei a perceber que era assim que funcionava. Por esse mesmo motivo, quando entro em alguma loja e há muitas pessoas para serem atendidas, invariavelmente vou embora e volto depois, ou recorro a outra, se for o caso.

 

Alimentação

Outro detalhe que me faz admirar muito o povo português, é dedicação à alimentação. Aqui é raro encontrar os populares self-services do Brasil. Todos os restaurantes têm uma espécie de cardápio que pode variar em seu conteúdo, mas que apresentam a sopa de entrada, o prato principal, a bebida e o café ou sobremesa. Pode-se pedir separado também, mas vejo que é um hábito. Se o seu amigo que trouxe marmita para o trabalho (outro hábito saudável e comum) quiser almoçar com você no restaurante, não tem problema; ele leva a sua marmita e come lá com você! Simples assim! E ninguém proíbe ou acha estranho! Também come-se na rua, nos bancos das praças ou em qualquer lugar que se queira abrir a marmita para comer! Adorei esse estilo e já levei muitos sanduíches de berinjela para comer nas praças! Os portugueses são bem mais magros que os brasileiros e dou todo o crédito à alimentação – apesar dos doces!

Ah, os doces…

 

Naturalidade

Essa vai para as mulheres. Já andei em várias cidades aqui em Portugal, desde o Porto até Lisboa, e vejo como uma marca das mulheres portuguesas o fato de que elas não andam tão maquiadas e tão produzidas quanto as mulheres do Brasil. Claro que são elegantes, e se vestem muito bem, mas não vejo uma ansiedade em estarem com o cabelo escovado, nem com roupas de marca… Andando pelas ruas, vê-se uma variedade tão grande de cabelos que nem me lembrava mais que existiam. Cada uma leva o que tem. Ponto.

 

Cigarro

Uma das piores impressões e sem dúvida uma das primeiras que tive, foi a relação com o cigarro. Só percebi que se fuma pouco no Brasil, depois que cheguei aqui. O cigarro é um item presente em todos os lugares por onde já andei e também é consumido por muitas mulheres e jovens, o que considero uma pena…

Aqui não existe uma lei que proíba (ou se existe não é aplicada) o cigarro em ambientes fechados. Então podemos ter o azar de entrar num restaurante e a pessoa ao seu lado acender um cigarro e começar a fumar. Já sai literalmente correndo de alguns lugares!!

Em shoppings não se fuma, mas na porta sempre há uma aglomeração de pessoas fumando. O cheiro de cigarro é muito comum em quase todos os lugares e acho lamentável isso… um pais tão lindo bem merecia uma forte campanha contra o consumo de cigarros.

 

O povo português

A minha lista pode ser interminável, pois vejo e sinto muitas diferenças, mas como me dediquei a eleger somente as que mais me chamaram a atenção, vou me limitar aos pontos que coloquei, embora minha lista não fique por aqui.

Por último, vou falar da relação com nossos anfitriões, os portugueses.

Já li em vários grupos no Facebook, que os portugueses são fechados e frios, mas que quando se tornam seus amigos, são como irmãos.

Bem, a minha experiência com os cidadãos lusitanos não poderia ser melhor! Sempre fui bem recebida, estimulada e tratada com muito respeito, mas é claro que o primeiro passo para uma relação é sempre nosso – aqui ou em qualquer lugar do mundo!

Fico feliz por todas as boas e novas amizades que fiz ao longo desse ano aqui em Portugal, tanto com brasileiros, quanto com portugueses, porque no relacionamento humano não existem fronteiras nem nacionalidades, só há lugar para o respeito e amizade.

Sei que ainda vou viver outros momentos para o bem ou para o mal… e quer saber… espero ansiosa por isso!

 

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Imagem e conteúdo via Joana Cabral

Joana Cabral
Joana Cabral é contista e roteirista de teatro. Autora dos livros Fragmentos do Desencontro, Pedro e João Editora, São Paulo, 2010 e Culpas e Cólicas, Faces Editora, Rio de Janeiro, 2013. Participou da “IV Antologia de Contos de Autores Contemporâneos”. Joana recebeu o prêmio “Osman Lins de Contos – 2005”

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Joana Cabral

Joana Cabral

Joana Cabral é contista e roteirista de teatro. Autora dos livros Fragmentos do Desencontro, Pedro e João Editora, São Paulo, 2010 e Culpas e Cólicas, Faces Editora, Rio de Janeiro, 2013. Participou da “IV Antologia de Contos de Autores Contemporâneos”. Joana recebeu o prêmio “Osman Lins de Contos – 2005”