Morando em Portugal

Quando me mudei para cá eu vivia em estado de paranoia constante.

Uma das coisas mais inúteis que eu trouxe na mudança é o mosquiteiro de berço do Immanuel. Era impensável colocá-lo para dormir sem. Eu sai do Brasil no auge da zika transformando fetos saudáveis em bebês com microcefalia, da dengue provocando hemorragia fatal. Cheguei a dar um tapa na cara do Luiz Fernando Chimanovitch para matar um pernilongo e também acertei a perna da mãe do Gustavo Wrobel pensando que eu estava salvando a vida deles.

Quando cheguei a Portugal eu colocava a mão na bolsa a todo instante como um tique nervoso e tinha medo de sentir que fui roubada. Eu tinha medo quando um estranho se aproximava do Immanuel, porque nos grupos de mães ai no Brasil só se falava em sequestro de bebês.

Eu sempre fui muito corajosa, mas meu coração acelerava quando me pegava sozinha em uma rua mais deserta. Cheguei a andar com o tal spray de pimenta na bolsa.

Eu tinha medo de consumir pimentão e morango porque eu sabia que estava dando um prato de veneno para minha família. Eu me sentia culpada quando não podia comprar orgânicos.

Sair do Brasil é dificil, e como. Eu não vou mentir. Eu finalmente havia alcançado uma tranquilidade financeira que me permitia morar em prédio com piscina, academia, vaga demarcada. Ui, como a gente se ilude, não é? Do que adianta mesmo porteiro 24 horas e empacotador no caixa do supermercado se nada disso compra paz de espírito?

Bom, Immanuel nunca usou mosquiteiro para dormir aqui. Eu voltei a comer morangos e a sair sozinha em ruas desertas sem nenhum medo. Hoje tivemos um dia agradável em um parque sem medo de pernilongos assassinos. Ninguém cobrou para olhar nosso carro (guardadores existem aqui mas não te ameaçam fixando valor para estacionar na rua).

Nosso carro não tem insufilm e nem nosso prédio tem garagem, nosso carro dorme na rua e a cadeirinha do Immanuel fica lá para quem quiser ver. Não tem câmeras de segurança na rua e ninguém nunca fez nada. Aqui não tem porteiro e curiosamente o meu sono é mais tranquilo. Passou o medo de ter alguém arrombando a porta do meu apartamento no meio da noite.

Outro dia em um fórum de mães do Brasil perguntei a uma mãe sobre um sintoma do filho dela que se parecia com o do Immanuel e ela disse que eu devia consultar meu pediatra. Eu dei risada. Eu nem tenho um pediatra aqui e vou para o último trimestre da gravidez sem nem ver um ginecologista. Médico especialista é luxo quando se usa a saúde pública (saiba mais sobre “Como fazer o número de Utente” e “Seguro PB4“). Mas tudo bem, sobrevivemos, aprendi a não ser tão dependente do pediatra. Você consegue imaginar o quão insuportável deve ser o whatsapp de um pediatra no Brasil?

Não tem luxo nenhum na vida da classe média europeia. É por isso que eu tenho certeza que 90% dos meus amigos jamais deixariam o Brasil. É duro montar seus próprios móveis, limpar sua própria casa, empacotar suas compras, trabalhar fora e cuidar dos seus filhos sem ajuda. Cara, é ESGOTANTE!

Mas quando olho para o sorriso desse rapazinho penso que eu sou capaz disso e de ir muito mais além.

Não sei se voltaria atrás de uma vida cheia de mimos confortáveis (e vamos deixar claro que eu adoro isso também) sabendo que estou destinando meus filhos a morar em um país onde tudo isso pode lhes custar muito caro, e não estamos falando de dinheiro.

😉 Gostaria de nos acrescentar alguma informação ou nos alertar quanto a algum possível erro?

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Imagem de Amanda Aron Chimanovitch

Amanda Aron Chimanovitch
Essa publicação foi uma contribuição de um de nossos seguidores. Quer ver a sua história por aqui também? Mande-nos um e-mail contanto um pouco sobre as suas aventuras e teremos o prazer em compartilhá-las.

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