Depoimentos

Um dia comum em Portugal

Um dia em Portugal
Ana Lima
Escrito por Ana Lima

O telemóvel me despertou às 6h30 da manhã. Entretanto, eu enxerguei 9h30 no ecrã e pensei: estou feita ao bife! Estou tramada!

Eu deveria ir ao ginásio fazer a passadeira, mas estava com preguiça. Fui, então, banhar-me e vestir-me. Pus cuecas confortáveis e vesti um fato vulgar: uma camisola branca e uma calça de ganga escura.

Calcei sabrinas porque, como é sabido, não me apetecem os tacões a me magoar os pezitos e a me fazer usar penso-rápido.

Peguei o controlo, liguei a TV e um repórter estava em direto na RTP. Pus água ao lume para fazer o meu pequeno almoço, tomei meu sumo, minha chávena de café, meu sandes, lavei a loiça e deitei fora o lixo.

Fui esperar o comboio para o Cais do Sodré. Gostava imenso de ter no Brasil essa segurança e esse conforto no transporte público. Fora isso, é tudo como na ex-colônia, inclusive as grandes bichas.

Uma malta de putos fumava, enquanto adeptos sportinguistas gozavam com benfiquistas, a falarem dos golos de suas equipas e das defesas do guarda-redes. A meu lado, uma mamá contava para o seu bebé a história do Capuchinho Vermelho, um gajo estava a se fazer a uma miúda, dizendo-lhe parvoíces. Ela, que via uma banda desenhada, estava nas tintas para ele.

Do pé pra mão, aparece um parvo a recitar provérbios bíblicos. Penso que ele tinha pancada na mola, pois falava a mesma coisa insistentemente.

Eu, que normalmente ando despassarada, lia um artigo sobreum assunto interessante: a regulação das empresas lutuosas e cerimónias funéreas deste país.  Se calhar, na actualidade é uma excelente área para empreender. O texto tratava do que é preciso fazer quando se está prestes a dar o peido mestre, a esticar o pernil. A reportagem não era bem escrita. Onde já se viu inserir palavras chulas em um assunto tão sério? O autor do texto pareceu apenas encher chouriços. Era chato pra caraças. O que está em causa é que esse mercado é estável e carente de inovações. É mesmo verdade! Neste assunto, tenho muitos anos a virar frangos.

Desci do comboio e estava um sol de lascar. Fez-me falta uma pala.

Fui lá ter com uma amiga alfacinha para um meeting. Ela me apresentou uma empresária que falava de uma maneira giríssima, mas eu quase não percebia nada do que dizia. Como eu não precisava fazer statement, logo confessei minha dificuldade em entender a língua.

Ela me explicava sobre os factores principais para empreender no país e que muitos brasileiros cá vêm para tentar uma nova vida, amiúde a reclamar da situação do Brasil. Segundo ela, não são casos excecionais. Falou sobre os défices de Portugal e as oportunidades na área da restauração.

Tínhamos a barriga a dar as horas e fomos almoçar no centro de compras. Pedi gambas e sapateira, enquanto elas se fartaram de punheta de bacalhau com grelos. Todas tomamos uma ginjinha no final.

Vimos montras cheias de saldo. Que fixe! Não resisti e comprei uma mala de festa supergira. De borla, ainda facturei um estojo de maquilhagem mequetrefe. Paguei com Multibanco. Por fim, entramos na Primark para comprar uma roupa para a filha dela, uma rapariga de 12 anos. Despedimo-nos ali e eu não havia decidido como iria voltar para minha casa.

Minha carta de condução é válida aqui e consigo guiar melhor que no Brasil. Além disso, o aluguer de veículos não é alto, inclusive os descapotáveis. No Brasil, sempre vou aos arames com as motas, entretanto aqui não há. A verdade é que eu estava fatigada para dirigir. Bué. Também previ que poderia passar em uma tasquinha e tomar uma imperial bem fresca.

Entre a carrinha e o autocarro, escolhi este último, pois me deixaria mais ao pé de minha morada. Mas a quantidade infinita de rotundas estava a me deixar nauseada. Para completar, meu telemóvel estava a descarregar e eu necessitava de uma ficha.

Desci na paragem seguinte para tomar um Uber. Eis que havia uma espécie de livraria-choperia e lá entrei. Que sítio porreiro! Pedi um fino e uma dose de percebes. Aquilo sabe totalmente a mar. Entrei no Uber, um carro mais velho que a Sé de Braga, e o condutor me ofereceu um rebuçado. Dirigia lento demais o homem. Eu só queria que ele não demorasse tanto quanto as obras de Santa Engrácia. Nunca mais é sábado! Cheguei à quinta e o ascensor estava ainda por arranjar. Este dia ainda está a ser muito longo e não vai ser pera doce.

Até loguinho!

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Sobre o autor

Ana Lima

Ana Lima

Ana Lima é jornalista por formação e escritora por necessidade existencial.
Especialista em comunicação corporativa e gerenciamento de crises de reputação, sócia da Brava Comunicação, escritora de biografias, ghost writer. Mãe de Gabriel e Rafael, vive entre o Recife e Sintra.