Encontros e desencontros

Capítulo X – Encontros e desencontros: A busca de Pilar

encontros e desencontros
Joana Cabral
Escrito por Joana Cabral
Capítulo X

Dois finais de semana seguidos sem ir à Lapa e compartilhar de momentos tão gostosos com seu namorado já estavam deixando sinais em Pilar. Milagrosamente eles não brigaram em nenhum momento nos três meses que se seguiram ao inusitado pedido de casamento, acompanhado de outro que (ainda) não estava em condições de aceitar. Ela sabia que não poderia ter garantias com relação a Bruno, afinal ele estava partindo para um país tão distante! Um oceano no meio, não era para qualquer um… como o amor sobreviveria ao passar dos anos e à distância?

Pilar resolveu fazer uma caminhada na praia, precisava colocar a cabeça no lugar. Deixou seu sobrinho em casa chorando, mas não estava disposta a brincar. De repente o mundo era cinza de novo e uma dor parecida com a que sentira há tanto tempo quando o irmão fugiu de casa, insistia em instalar-se em seu espírito.  Ela nem percebeu que já era noite, tão submersa estava em seus pensamentos. Já não chovia mais e o calor opressivo fazia com que a noite parecesse mais suave e aconchegante na praia.

—  Quanto quer pelos seus pensamentos?

Quase caiu da mureta da praia, onde estava há algum tempo, hipnotizada, observando as ondas brincando de massagear a areia.

— Oi Pedro, que susto! Senta aí – deu uma batidinha na mureta ao seu lado.

— A Luana me disse que você estava aqui na praia e vim ficar um pouquinho com você!

—  Obrigada mano, não tenho sido uma boa companhia esses últimos meses…

—  Eu entendo Pilar! Sei que está sofrendo e ainda vai demorar a passar, mas quero que saiba que estou orgulhoso de você! Fez a escolha certa!

—  Eu nunca nem pensei em escolher o contrário, Pedro! Demorei tanto tempo para te encontrar e também tem o Felipinho…

—  Consegui a sua vaga no próximo semestre. O ano que vem você vai começar com tudo! Vai voltar à universidade e também vai mudar de trabalho. Vou conseguir uma vaga para você no departamento de psicologia! E já vai valer como estágio. Não é o máximo?

—  Sim, vai ser muito legal! Vou sentir falta da Nina, mas não há dúvidas de que trabalhar na minha área será mil vezes mais estimulante do que ficar arquivando guarda-chuvas velhos!

Pedro abraçou a irmã e ficaram um longo tempo abandonados no conforto de estarem novamente juntos e poderem dividir os seus sentimentos. Para eles nunca foi preciso muitas palavras para que se entendessem. Às vezes um único olhar era suficiente, por isso mesmo Pilar sabia que não enganava seu irmão, mesmo que ela mesma pensasse que estava fazendo a coisa certa, seu coração gritava que não! Nada daquilo fazia sentido! De que adiantaria a vida, jogando fora aquele sentimento que justificava cada batida de seu coração?  Das coisas envolvidas a mais forte era o sangue. Pilar queria estar com o irmão, queria poder usufruir plenamente de sua família e Bruno seguia rumo ao desconhecido e à solidão, mesmo que estivessem juntos, sabia que não o perdoaria se tivesse que abrir mão da única coisa pela qual justificava ter se levantado da cama todas as manhãs nos últimos anos: refazer a sua família!

Pilar voltou para casa calada. Um peso em cada passada. Bruno partiria em três dias. Em dez seria o Natal. A primeira vez que passaria a data com o irmão, a cunhada e o sobrinho. Haviam convidado também a tia e os primos que moravam em Parada de Lucas e que abrigaram Pilar no primeiro ano em que morou no Rio. A antipatia que a tia nutria por Pedro evaporou como material volátil no momento em que soube da vida bem sucedida do sobrinho e da possibilidade de futuramente, quem sabe, tirar algum proveito disso!

Não quis jantar com a família, e muito menos resistiu ao sedutor convite do sobrinho para assistirem desenho animado juntos até a hora de dormir. Pilar limitou-se a tomar um banho e deitou cedo. O olhar no teto e o pensamento visitando a pergunta que enroscava-se como a cobra, um sentimento milenar, uma maçã estendida, a tentação mais forte que já sentira em toda a sua vida. Os olhos encheram-se de sentimentos uma vez mais e mais… infinitamente! Os soluços não conseguiram arrebentar com o peito, não tiveram o efeito de paralisar o coração… ao contrário, jogou-a  no vazio ilusório do sono agitado e perverso, onde  o acordar renovaria a dor e a triste realidade.

—  Meu Deus, estou atrasada!

Pilar pulou da cama com o sol batendo em suas costas. Ainda tonta tentando entender o que estava acontecendo e o porquê de não estar a caminho do trabalho. Apressada correu para a cozinha no desespero de encontrar o irmão e saber o que aconteceu. O apartamento estava vazio e Pilar correu de um ambiente para o outro bastante incomodada em verificar que todos haviam saído e deixado ela para trás!  Correu para o quarto e vestiu-se o mais rápido que conseguiu. Ela pousou a mão na maçaneta da porta no mesmo instante em que sua cunhada e depois de uma pequena pressão, finalmente sentiu a porta ceder. Do outro lado a cunhada que a encarava com o carrinho do filho vazio nas mãos e a barriga esticada e redonda.

—  Ah, já acordou. Luana falou enquanto estacionava o carrinho ao lado da porta.

—  Sabe me dizer o que aconteceu aqui hoje? Por que o meu irmão não me acordou para ir ao trabalho?

—  Ele achou melhor deixá-la dormindo. Ontem você quase não dormiu e para falar a verdade, está com a cara péssima!

— Mas eu preciso ir para o trabalho! Posso perder o emprego por isso!

— Não se preocupe, Pilar. Seu irmão já está vendo uma vaga para você no departamento de psicologia da universidade. Mais cedo ou mais tarde, você vai sair do seu emprego mesmo…

— Mas eu não gosto de faltar ao serviço, me sinto mal! E a Nina está me esperando.

— O seu irmão já avisou. Ligou para ela ontem a noite e disse que você não teria condições de trabalhar hoje.

— Mas quem decide se eu tenho condições ou não de trabalhar sou eu!

A última frase saiu tremida e sem força. Pilar caiu na cadeira e deixou que mais uma vez jorrasse o manancial de tristeza que não cessava de apertar seu peito e sua garganta.

— Pilar, escuta. Já que não foi trabalhar hoje, gostaria muito de conversar com você.

— Ah, cunhada, acho que não estou no meu melhor dia…

— Eu sei, e é sobre isso que eu quero conversar! Pilar, eu estou vendo que estás sofrendo muito! Acho que você gosta do Bruno mais do que imagina. Queria te pedir para pensar bem. Ele vai para muito longe. Ah, querida, a distância é um bichinho que come pelas beiradas. Quando a gente vai ver, já está acostumado a ficar longe, depois vai deixando de pensar na pessoa, e um dia, de repente, percebemos que ela está em algum lugar do passado, bem enterradinha…

— E isso não é bom? Quem me dera já pular para essa última fase ai!

— Cunhada, você está pensando somente em si mesma, já parou para pensar que isso também vai acontecer ao Bruno? De repente ele já não se lembra mais de você…

— Eu não estou entendendo onde você quer chegar Luana. E não é bom para nós dois? Esquecermos tudo isso?

— E você acha que quando eu conheci o seu irmão nós nos largamos? Nada neste mundo seria capaz de separar a gente! Pensa, querida! Não abra mão de viver esse amor, mesmo que um dia ele acabe, mesmo que não dê certo!

— Mas, e todo o resto? E o meu irmão? E o Felipe? E você, Luana? Eu finalmente tenho uma família! Vivi tanto tempo só, desde que meu pai adoeceu, minha vida era cuidar dele, morávamos num quartinho pequeno e raramente via uma pessoa… E quando ele morreu foi muito, muito difícil me recuperar!

— Eu sei querida, mas a sua realidade agora é outra! Você não está mais sozinha! Você é amada! Todos nós te amamos e nada vai mudar isto!

— Você sabe o que me fez levantar da cama todos os dias desde que o meu pai morreu? Foi a esperança de que eu encontraria o meu irmão e a certeza de que ele me tiraria da casa de nossa tia! Luana, mesmo que vocês estivessem morando num barraco, eu tenho a certeza de que ele me acolheria!

— Pilar, você precisa saber com certeza se o que sente em relação a seu irmão é amor, medo ou culpa. Estou vendo você fazer uma besteira, menina! E depois não vai ter mais volta! Não deixa o Bruno solto.

Luana saiu devagar, sem fazer muito barulho. Sabia que a cunhada precisava pensar em tudo o que acabara de falar e principalmente, ela precisava colocar para fora todo aquele sentimento! Talvez ela tivesse juntado todas as dores de sua vida em um único evento e agora estava fazendo o luto dos anos de saudade e solidão. Talvez ela tivesse simplesmente revivendo um sentimento de perda e abandono que já conhecia e temia não suportar.

***

Ela não sabia quanto tempo ficou ali na cozinha, as palavras da cunhada ricocheteando de um lado para o outro, elétricas e perigosas, como as balas em dias de guerra. Uma coisa incomodava mais do que a distância anunciada, mais do que a saudade, era o medo de perder. Pilar não concebia perder para ganhar, ou vice versa. Algo em sua mente clareava, agora ela sabia o que não queria. E a resposta era perder. Ela queria o seu grande amor. E lutaria por ele! Pegou a bolsa no quarto e saiu apressada e sem olhar para trás. No fundo do corredor o sorriso de Luana.

O ônibus atravessou do Recreio até o centro da cidade e todo trajeto foi pouco para que Pilar organizasse os pensamentos. Uma ansiedade crescente fazia com que os passos ficassem levemente desengonçados, mas nem ela, nem ninguém percebeu. A Lapa vivia sua rotina quente e irrespirável que deixava a todos com os cabelos grudados na nuca e o banzo nos músculos.

Ela subiu os degraus de dois em dois e parou ofegante em frente à porta de Bruno. Não precisou bater. No momento exato em que levantou o punho, a porta abriu ofuscando Pilar com o azul radiante de alegria e esperança.

— Então você vai comigo!

— Não é bem assim, Bruno. Vim aqui somente para conversar contigo.

— Me dá um beijo primeiro. Não te vejo há quase quatro dias, tem ideia da saudade que estou de você?

Bruno encerrou as últimas palavras com os braços totalmente em volta do corpo de Pilar. Ela desvencilhou-se o mais rápido que conseguiu. Aquele abraço era um abismo, tão fundo quanto o seu olhar.

— Não, Bruno! Não vim aqui para isso!

— Então veio para o quê?

— Acho que não te disse exatamente o que eu acho de tudo isso!

— Então fala!

O sorriso brotando no canto da boca. Os olhos acessos de alegria e desejo.

— Eu vim te pedir para não ir. Não quero te perder, Bruno!

— Eu não posso ficar, meu amor! Não vê que jamais terei esta oportunidade de novo?

— Mas você está jogando o nosso amor fora? E se ele morrer? Não me deixe sozinha, Bruno!

— Mas, Pilar, nós já tivemos essa conversa tantas vezes… eu não posso abrir mão do que me ofereceram. É a oportunidade que nunca tive! Quer que eu passe o resto da minha vida trabalhando de garçom naquele restaurante? Ah, Pilar, isso é amor? Você está sendo extremamente egoísta!

— Eu! Egoísta? Não sou eu quem está indo embora para resolver a minha vida! Não sou eu quem não está nem aí para o apelo de quem mais ama! Você, Bruno, está sendo muito egoísta e injusto comigo!

— Eu não vou ficar aqui discutindo com você Pilar!

— Agora está me mandando embora?

Os olhos de Pilar estavam vidrados de raiva e de dor! Uma secura impedia que as lágrimas descessem, e elas acumularam-se na garganta, impedindo que conseguisse falar! Não suportando mais olhar para Bruno, muito menos ouvir o que ele dizia, Pilar saiu correndo, todo hotel tremeu com o estrondo da porta ao ser fechada.

Bruno sentou na cama e afundou as mãos nos cabelos. Parecia que era o fim. Não tinha mais esperança de que ela entrasse pela porta novamente e pedisse perdão pelas infelizes palavras. Talvez ele nem quisesse que isto acontecesse.

***

Pilar arrastava-se triste entre as estantes do trabalho. Nina não aguentava mais ver a sua amiga assim. Já tinha tentado animá-la de todas as formas, mas ela estava demorando demais para se recuperar do rompimento com Bruno. Ela nem queria falar sobre o assunto. Nina sabia da discussão, mas esperava que a amiga levantasse o assunto. Não queria parecer intrometida, mas precisava fazer algo, e também, tinha uma missão para cumprir.

— Miga, vamos almoçar no Amarelinho hoje? Nunca mais fomos lá.

— Obrigada Nina, mas estou sem fome nenhuma, e também seria uma péssima companhia!

— Pilar, você tem que reagir! A vida continua. Se ficar assim vai acabar doente. Quer ficar assim?

— Não me importo com mais nada, amiga. Sei que vai passar, mas ainda está doendo.

— Eu acho que não vai passar é nunca! Pronto! Falei!

— Ah, você esta ajudando muito, Nina!

— Quer saber, Pilar? O Bruno é um gato, atencioso e ainda louco por você! E você dispensando o cara assim na maior! Tô bege!

— Logo você me falando isso, Nina? Logo você que estava do meu lado em todos os momentos que eu procurei meu irmão? Logo você que viu o quanto eu sofri a cada vez que voltava sem respostas?

— Ah, Pilar não tenho muita paciência pra mimimi… e você não encontrou o seu irmão? E ele não está mega feliz na vida dele de casado e pai? Então amiga! Vai ser feliz! Deixa a vida do seu irmão para ele viver e pelamordedeus vive a sua!

Os olhos de Pilar já estavam alagando com as palavras de Nina. No fundo ela sabia que estava se cobrindo com camadas de desculpas e sabia também que o arrependimento foi como um soco no estômago no mesmo instante em que saiu correndo do hotel e Bruno não foi atrás. Ela sabia que o perdeu naquele exato instante. Pilar não suportou mais segurar. Tinha um mundo de sentimentos contraditórios envolvendo-a. Queria o irmão, queria Pedro, queria que o tempo voltasse, mas principalmente, queria que Bruno a perdoasse. Se um dia ele pudesse, então, aquela pressão toda no peito talvez aliviasse.

Nina agachou-se e abraçou a amiga. Deixou que ela esvaziasse, que deixasse cair até a última gota de seu tristeza. No fim, quando os soluços já estavam ficando espaçados, depositou nas mãos de Pilar um envelope. Ela olhou para Nina sem entender o que significava aquele gesto.

— Querida, no dia em  que completar um mês que o Bruno viajou, ele estará te esperando no aeroporto. Se você não for, ele não irá te esperar, nunca mais!

— Mas o que você está dizendo? O que tem aqui dentro? Pilar começou a rasgar o envelope.

— É uma passagem para Lisboa em seu nome. Ele ia te dar no dia em que você foi lá no hotel, mas como você mesmo sabe, não deixou nenhuma chance para ele!

— Você acha que eu devo ir, Nina?

— Se perguntar novamente eu vou tomar essa passagem de você e vou lá para Portugal ser feliz com aquele gato!

***

Pedro,

Enquanto o avião atravessa o oceano, eu só penso em você.

Agora entendo plenamente o que fez quando fugiu de casa. Há momentos em que precisamos tanto fazer algo por nós mesmos, que esse gesto tem que ser secreto e cheio de rituais.

Não me leve a mal. Não fique triste por não ter me despedido de vocês. Muito menos pense que meu gesto foi uma vingança. Simplesmente precisava que fosse assim.

Precisava abandonar algo que amava muito para ter forças de ir atrás da outra parte de mim que amo igualmente e com a mesma intensidade!

Quando você se foi, pensei que o seu gesto era egoísta, quando o Bruno se foi, pensei que ele também estava sendo egoísta, mas agora entendo, que é preciso ter muita coragem para deixar tudo o que lhe dá segurança e lançar-se no mundo, no desconhecido.

E eu que te procurei tanto! Que jurei para mim mesma, tantas vezes, que se te encontrasse, jamais me afastaria novamente! Não. Não estou quebrando promessas, estou somente abrindo as represas que criei em torno de nós dois na ânsia de reviver o lugar mais secreto e morno que já habitei. Eu mal sabia que poderíamos ser felizes e estar juntos, mesmo a  léguas de distância!

Sabe, irmão, descobri que para cada encontro, a vida nos reserva um desencontro.

Com amor,

Pilar.

O sol refletia o seu rosto de volta na janela do avião. Lá fora um oceano infinito.


Imagem via Pixabay

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Sobre o autor

Joana Cabral

Joana Cabral

Joana Cabral é contista e roteirista de teatro. Autora dos livros Fragmentos do Desencontro, Pedro e João Editora, São Paulo, 2010 e Culpas e Cólicas, Faces Editora, Rio de Janeiro, 2013. Participou da “IV Antologia de Contos de Autores Contemporâneos”. Joana recebeu o prêmio “Osman Lins de Contos – 2005”