Encontros e desencontros

Capítulo III – Encontros e desencontros: A busca de Pilar

Encontros e desencontros
Joana Cabral
Escrito por Joana Cabral
Capítulo III

O prédio estava a uns duzentos metros. Pilar teria que apressar os passos caso quisesse entrar no hospital antes do horário de visitas. O celular vibrou forte no bolso da calça jeans, fazendo com que ela desse um pulo e soltasse um leve grito de susto! Já estava com o celular há vinte dias e ainda não havia se adaptado à nova companhia…

— Oi Nina, já estou quase lá!

— Assim que sair do hospital me liga. Eu já roí a unha de tanto nervoso!

— Fica tranquila. Eu tenho certeza que desta vez é ele!

Enquanto atravessava o enferrujado portão, Pilar fazia um balanço dos últimos dias, desde que elencara, com Nina, os diversos supostos Pedros com alto potencial de ser o seu irmão! A primeira peneira foi a da idade e em uma nova busca, acrescentando os caracteres “26” e “anos”, reduziu quase pela metade. Depois, acrescentou a cidade Rio de Janeiro. Enfim as opções iam diminuido e já dava para fazer algumas anotações e em seguida, o começo das buscas.

A tranquilidade no setor de Perdidos e Achados já não era a mesma! Nos horários de almoço Pilar nem chegava mais perto da estação, ao contrário, suas tardes eram de intermináveis visitas a escritórios, escolas, cartórios… onde houvesse algum Pedro e seu sobrenome! Suas buscas eram frustadas, as pistas levavam às mais diversas pessoas. Uns já haviam se mudado, casado e até mesmo morrido.

Pilar sempre voltava cansada e invariavelmente fazendo com que Nina perdesse sua primeira aula! Mas assim que pisava no escritório, com o espírito abalado, sua amiga já estava com uma nova pista em mãos, reacendendo as esperanças e renovando o ciclo. O aparelho de celular, comprado em suaves doze prestações, era agora, parte fundamental na busca, pois agilizava a comunicação entre as duas, principalmente no pós-encontro, onde Pilar inevitavelmente ficava mais fragilizada e com uma visão mais realista do quão impossível era a sua busca.

— Pilar, o seu irmão gostava de futebol?

—  Que eu me lembre não, porquê?

— É que aqui tem uma notícia de que um tal de Pedro Silva de Oliveira foi contratado pelo Flamengo!! O Flamengo, cara!! Será que é ele?

— Tem foto aí? Deixa eu ver…

Pilar aproximou o rosto de Nina e as duas ficaram uns bons minutos vendo as fotos do tal jogador que, segundo Pilar, não era o seu irmão, nem do avesso! Abriram outros links, concentradas nas fotos e riram muito dos “Pedros” que apareciam… Os dedos ágeis de Nina percorrendo as as páginas e a concentração de Pilar a cada sequência de carregamento da página no Google.

— Abre essa, Nina! Pilar enfiou o dedo na tela do celular quase fazendo com que o mesmo voasse ao chão!

— Calma, miga, assim ficamos sem o nosso detetive particular! Não sei se você reparou, mas o seu celular mal faz ligação, então, segura esse dedo na próxima vez que se empolgar, viu?

— Isso não é hora para brincadeira, Nina! A parada é séria! Abre esse link aqui!

Apontou com mais cuidado dessa vez.

— Esse? Ah, não! Detesto abrir esse tipo de notícia! Olha aqui a foto! O cara tá morto! Nem deve ser o seu irmão!

— Como eu vou saber, Nina? Abre ai e eu dou uma olhada! Assim não dá nem pra ter uma ideia!

Nina ficou com medo de abrir a página, era a primeira vez que procuravam o irmão da amiga em uma coluna policial! Durante todos aqueles dias só abriam links de empresas, perfis no Facebook, e até coluna social! Mas nem pensavam em procurar naquele tipo de notícia. Ela clicou devagar, os olhos mais em Pilar do que no link à sua frente.

— Deixa eu ver isso direito!

As pupilas de Pilar encolheram na tentativa de melhorar a acuidade, todo seu rosto era pura concentração. Em milésimos de segundos, sua expressão passou da surpresa para o horror e quando devolveu o telefone para a amiga, Pilar era toda dor. Não conseguia falar, tudo estava travado por dentro.

— O que foi, amiga? Que cara é essa? É o seu irmão? Esse, o da foto?

— Ele… está… morto!

Nina pegou o celular e abriu na página que Pilar via a notíca. Leu com calma e depois olhou para a amiga sentindo algo estranho com toda aquela agitação em torno da daquela vitima. Como ela pode ter tanta certeza? Pensou. Pilar já fora atrás de tantos outros potenciais irmãos e sempre voltava triste, quebrada e sem rumo.

— Miga, aqui não diz que ele morreu. Só fala que ele foi levado para o Miguel Couto!

— Como não morreu? Não leu, Nina? a voz saiu fina com um forte tremor. — Ele levou três tiros à queima roupa!

— Pilar, acho que você está muito cansada e sua cabeça está um tanto confusa. Talvez não seja ele. A foto nem é de perto…

— Eu sei, Nina! Você não entende… nós fomos gerados no mesmo útero! Eu sei! Há algo mais forte do que eu possa entender!

A frase terminou truncada, os braços caidos ao longo do corpo.

— Já sei. Vou ligar para o hospital e perguntar como ele está. Continuo achando que ele não morreu!

O movimento na recepção do hospital era intenso e foi preciso esperar mais de meia hora para ser atendida.

— Boa tarde, vim fazer uma visita.

— Qual é o nome do paciente?

— É Pedro. Ah, Pedro Silva de Oliveira.

— Um momento, por favor… a funcionária digitou o nome no computador e após alguns segundos respira fundo e olha para Pilar com uma expressão indefinida, a primeira reação foi de medo, a segunda de esperança, porque junto com o olhar, não veio o caracteristico balançar de cabeça.

— Ele está na UTI. Só pode receber visita de parentes.

— Eu sou a sua irmã.

— A sua identidade por favor.

Pilar entrega o documento como se entregasse toda a sua vida junto. E se ele não fosse o seu irmão? Pensou. Seria uma situação um pouco difícil de explicar…

— Você só pode ficar com ele uma hora. Pode entrar por aquela porta, o CTI fica no final do corredor.

Pilar carregava um juramento, uma saudade e o próprio sangue que alimentava sua esperança, ao longo do corredor. O seu maior medo era de se decepcionar. Se o rapaz que estava atrás daquela porta não fosse o “seu” Pedro, não sabia se conseguiria juntar os cacos outra vez. Sem saber direito como proceder, ouviu atenta as explicações da enfermeira e após passar por todo procedimento, finalmente entrou no CTI. Atravessou os leitos atenta, olhava para os rostos na expectativa de reconhecer o seu irmão. Passos seguros e precisos até o ultimo leito, os cabelos extremamente pretos e cheios eram inconfundíveis. O coração aos saltos, as têmporas latejando e a respiração totalmente descontralada na hora em que leu o nome na plaquinha pregada ao leito: Pedro Silva da Oliveira.

O nada resumia o seu olhar.  Aquela impressão terrivel de que precisava de uma certeza, mas ela não vinha. Fechou os olhos com força e respirou profundamente… acalmou-se. Sabia que tinha pouco tempo e não precisava entrar em desespero justamente na hora em que estava diante do seu irmão… ou não…

Era imprescindível ser pragmática. Chegou bem perto de Pedro e tentou reconhecer o rosto por trás da máscara de oxigênio. Um ato quase impossível, já que ela tomava uma boa parte do seu  rosto, deixando de fora somente os olhos, a testa e o queixo. Era necessário ver o seu olhar ou  reconhecer algum sinal em seu corpo! Pilar correu os olhos pelo doente e viu que era um rapaz forte, os músculos definidos por baixo do fino lençol. Lembrava-se de seu irmão bem mais magro, mas fazia dez anos que não o via. Quando ele fugiu, ambos tinham dezesseis anos, ele era apenas um garoto, e ela uma adolescente estudiosa e cheia de esperança… Agora ele era um homem e ela uma mulher. E o pior, eram quase desconhecidos. Ela finalmente deixou a emoção sair e segurou a sua mão. Apesar de não conseguir conter as lágrimas, sussurou algumas palavras de conforto e prometeu voltar no dia seguinte. Ainda podia ficar com ele uns dez minutos, mas resolveu conversar com o médico que estava de plantão.

— Ele ficará bem, Pilar! Não corre mais riscos.

O médico empurrou vários papéis em sua direção. Preciso que assine a guia de internação e outros documentos que estão aqui.

A cor sumiu do rosto de Pilar! Assinar?

— Desculpe doutor, mas porque eu deveria assinar? Ele não tem mais nenhum acompanhante? Uma esposa? Um amigo?

— Não! Absolutamente, não! Nós estamos tentando localizar algum familiar desde que ele deu entrada aqui, mas ninguém conseguiu, nem mesmo o pessoal do seu trabalho soube informar o contato de um parente – O médico passou as costas da mão pela testa na tentativa de interromper o curso de uma gota de suor – A propósito, como é que você ficou sabendo do acidente?

— Pela internet. Eu vi a notícia na internet! Disse com a voz tão insegura que ela quase nem acreditou em si mesma…

— É pouco comum ficar sabendo assim… mas, fazia algum tempo que você não via o seu irmão?

— Dez anos, doutor!

Se o médico ficou supresso ou impressionado com a informação, não esboçou nenhum comentário. Em vinte anos no pronto socorro já testemunhara todo tipo de história!

— Pilar, a partir de agora, você é a única responsável pelo paciente Pedro Silva de Oliveira! O médico despejou as palavras enquanto tomava de suas mãos os papéis assinados e levantava-se para voltar ao CTI.


Confira Encontros e desencontros: A busca de Pilar – Capítulo IV

Imagem via Pixabay

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Sobre o autor

Joana Cabral

Joana Cabral

Joana Cabral é contista e roteirista de teatro. Autora dos livros Fragmentos do Desencontro, Pedro e João Editora, São Paulo, 2010 e Culpas e Cólicas, Faces Editora, Rio de Janeiro, 2013. Participou da “IV Antologia de Contos de Autores Contemporâneos”. Joana recebeu o prêmio “Osman Lins de Contos – 2005”