Encontros e desencontros

Capítulo VI – Encontros e desencontros: A busca de Pilar

Encontros e desencontros
Joana Cabral
Escrito por Joana Cabral
Capítulo VI

Nove horas em ponto e uma cidade inteira para atravessar.

Pilar estava quase entrando em casa quando recebeu o telefonema da amiga e nem chegou a abrir o portão. Deu meia volta da calçada mesmo e seguiu fazendo um grande esforço para não pensar que precisava descansar. Era urgente resolver a questão do homem que estava no hospital.

— Poderia ter ao menos perguntado o verdadeiro nome dele! Pensou com raiva!

Entrou no trem, saiu do trem, entrou no metrô, saiu do metrô, entrou no ônibus e finalmente desceu na esquina do Hospital Miguel Couto. Já passara e muito das dez, mas Pilar não conseguiria simplesmente ir para casa, deitar e dormir, depois de tudo pelo qual havia passado naquele dia! As palavras de Pedro, o olhar incrivelmente azul e tenso ameaçando-a. “Ele é perigoso!” “Afaste-se dele”… Como faria para desvencilhar o seu nome do homem que estava lá, por todos esses dias, entre a vida e a morte, enquanto ela pegava em suas mãos e falava delicadezas e transmitia sua mais possível generosidade?

Ele esteve acordado durante quase o dia todo. Ainda estava muito perturbado e não queria ver ninguém. Seria preciso muita força para encarar o homem que estava lá, agora, na enfermaria do hospital, que só tinha a ela como referência, mesmo que não servisse para nada!

— Droga! Por que o Pedro-Olhos-Azuis não me disse quem o sujeito era? Por que não falou o seu nome? Se tinha família e o que eu poderia fazer para me desvencilhar dele? Era muito fácil dizer que ele era perigoso! Mas e agora?

Falou alto e para si mesma!

O corredor que levava às enfermarias estavam quase na penumbra, uma paz invadia o lugar! Pilar atravessou as muitas portas, escutava vozes baixas, guardadas em seus segredos e sussuros. À sua frente, a enfermeira baixa, larga e eficiente, uma prancheta de prontuários apertada ao peito e olhar mais impessoal que existia no mundo.

— É aqui. Ele está no último leito.

Passava das onze horas quando Pilar entrou no quarto. Todos estavam já  mergulhados em suas rotinas noturnas. Alguns dormiam, outros assistiam à televisão. Um rapaz chorava, mas estava virado de costas e Pilar sentiu imensa vontade de passar as mãos em seus cabelos. O ambiente era desolador! Ao fundo viu o seu tutelado. Ele dormia.

Sabia que não poderia ficar lá, que o horário de visitas já havia acabado, mas Pilar estava autorizada a entrar na enfermaria já que fora chamada para ir ao hospital por causa da transferência de Pedro. Um suave alivio passou pelo seu corpo ao ver que estava dormindo, não precisava conversar e ter que saber de coisas e tomar decisões no finzinho de um dia tão difícil!

Chegou bem perto do leito e viu o seu rosto sem a máscara pela primeira vez. De fato ele não se parecia com o do seu irmão. Talvez se tivesse visto assim, desde o primeiro dia, não teria se envolvido com um bandido! Mesmo consciente de que era uma pessoa perigosa e que deveria ficar longe dele para sua segurança e tranquilidade, Pilar ficou intrigada com o seu rosto. Conhecia aquele homem de algum lugar, mas não conseguia identificar de onde. Talvez alguém que tivesse passado por ela nos tempos de espera na saída dos trens, ou mesmo na salinha de Achados de Perdidos.

— Ele chamou por você a tarde inteira.

— Como? O que disse?

— Não é a Ana? Ele te chamou a tarde inteira. Acho que ficaria feliz em saber que estás aqui!

— Sim, sim… ficaria!

Pilar encarava o rapaz no leito ao lado de Pedro. Ele era muito jovem e estava com os dois braços engessados. Um calafrio passou por ela. Virou-se saiu da enfermaria apressada, mil demônios aos seus pés!

— E agora? Quem era Ana?

Uma esperança tomou conta de Pilar. Sim, era só saber quem era essa tal de Ana e passar toda a responsabilidade do paciente para ela! Finalmente uma luz no fim do túnel!

Esperar por quase duas horas para que o médico pudesse conversar era o de menos, difícil foi explicar tudo que aconteceu naquele dia e encarar o sorriso irônico e desconfiado do plantonista.

— Pilar, escuta… sei que pode parecer estranho, mas você não precisa ser, necessariamente sua irmã para se responsabilizar pelo paciente!

— Mas doutor, eu pensava que ele era outra pessoa! Não posso mais ficar responsável por ele!

— Eu até concordo contigo, mas tem um procedimento para isso. Venha amanhã no horário de expediente e abra um processo, ou algo do gênero para resolver o seu problema, que, confesso, é inédito para mim!

— Mas eu não tenho obrigação de vir até aqui amanhã… eu não tenho necessidade de continuar com isso!

— Eu sinto muito, Pilar, mas você concordou em ser a responsável pelo paciente. Não pode simplesmente dizer que não quer mais! Quando assinou, você tinha certeza de que ele era o seu irmão?

— Na verdade… ah, deixa pra lá! O que eu preciso mesmo fazer?

Pilar decidiu passar a noite no hospital e assim que começasse o expediente, entraria com o pedido de cancelamento da responsabilidade. Acomodou-se como pôde nas cadeiras da recepção e tentou dormir, apesar do intenso movimento da madrugada.

O dia só começou depois que conseguiu tomar um café na lanchonete e já ia em direção à recepção para resolver sua situação no exato momento em que começou a ouvir gritos no andar de cima e ao mesmo tempo viu pessoas correndo de um lado para o outro! Desciam as escadas apavoradas e não só os funcionários e acompanhantes, como também os pacientes!

— O que está acontecendo? Ela segurou por instantes o braço de uma enfermeira que passava ao seu lado.

— Um homem entrou na enfermaria e matou um paciente e fez um médico de refém! Ele está tentando sair de lá com o médico e está muito nervoso!

— Meu Deus!

Uma avalanche de adrenalina tomou conta do corpo de Pilar, fazendo com que os batimentos cardíacos disparassem. O primeiro impulso foi o de correr, mas não para longe… Ela subiu as escadas surda e cega, a enfermeira gritando para que voltasse! Foi difícil correr contra as pessoas em pânico que desciam as escadas e deixavam as suas camas.

Um homem que aparentava ter uns trinta anos e de aparência até inocente para a situação estava no final do corredor com uma arma apontada para a cabeça do médico que há poucas horas havia conversado com Pilar. Os dois homens trocaram olhares com ela: um arregalou os olhos, o outro estreitou, mas Pilar manteve o seu firme e decidido! Avançou pelo corredor com uma boa dose de teimosia, enquanto o bandido movia a arma  lentamente em sua direção, o médico aproveitou o momento empurrando-o ao chão e dois policiais caíram em cima imobilizando-o.

Ela nem ficou para ver o resultado da operação policial. Entrou na enfermaria, os olhos ardendo, o coração disparado, um sentimento inexplicável rondava o estômago e o medo do que ia encontrar…

O par de olhos azuis arregalados antecipavam um corpo todo encolhido tendo como proteção somente um lençol listrado e fino. Assim que Pilar se aproximou e pode ver que ele estava vivo, que não fora ele o alvo do assassino, respirou profundamente e caminhou lentamente em direção ao leito. Reconhecia o seu rosto, reconhecia a sua expressão, reconhecia o seu olhar reconhecia os seus cabelos encaracolados…

— Pedro? Sua voz saiu fina e alta – O que faz aqui, no hospital?

E o mundo escureceu.

Pilar acordou no setor de pronto socorro, estava deitada na maca dentro de um box separado somente por cortinas azuis. Sentou-se e esperou um tempo para evitar que a forte tontura a fizesse desmaiar novamente. Chamou por alguém e logo apareceu a enfermeira.

— Ah, acordou! Você é louca? Foi muita sorte não ter morrido! O maluco quase atirou em você! Não fosse o médico…

Pilar esfregava os pulsos enquanto tentava trazer para a sua consciência os últimos acontecimentos.

— O Pedro, gritou! Quero ver o meu irmão!

E saiu correndo em direção à enfermaria, pela vigésima vez em um único dia! Não fazia a menor ideia de quanto tempo ficara desacordada, era muito provável que eles tivessem aplicado algum remédio para que ela dormisse, pensou, pois ao entrar na enfermaria, reparou que tudo já havia voltado à sua rotina. Os leitos ocupados, os pacientes deitados e os enfermeiros ministrando os remédios. A única coisa que denunciava que algo acontecera por ali, era a excitação no ar, nas conversas e na expressão das pessoas. Somente um paciente não estava acordado, e era o que ela mais queria que estivesse!

Saiu impaciente, chateada e quase chorando. Há mais de vinte e quatro horas que não conseguia descansar, e seu corpo já estava sentindo. Tomou outro café reforçado na lanchonete e ligou para Nina. Precisava explicar o porquê de ainda não ter voltado ao trabalho.

— Que loucura miga! Você está bem? O homem já foi preso? Não sei nem o que te dizer! E agora?

— Não sei! Nina, só sei que você está segurando a barra aí sozinha desde ontem, mas assim que o Pedro acordar, vou esclarecer o que é que está acontecendo e assim que conseguir entender tudo por aqui, volto para o trabalho! Não sei como te agradecer a força que está me dando!

— Miga… eu tenho uma novidade para você…

— Ai, meu Deus! Me diz que é uma coisa boa! Não aguento mais tantas confusões!

— Bem… é que eu postei uma foto sua no face e fiz uma divulgação para ver se conseguia encontrar o seu irmão gêmeo… é que…

— Fala Nina!!

— É que tem uma mulher dizendo que conhece o seu irmão! Diz que estudou com ele!

— Ah, Nina! Ela mandou alguma foto? O que ela disse?

— Bem, ela me mandou uma foto dele, mas não achei muito parecido com você, não! Falou que não o via há mais de cinco anos, e não sabia onde ele morava, mas me disse que ele foi criado em Guapimirim, no pé da Serra dos Órgãos e que tem uma irmã gêmea! E eu estou com o nome da escola onde ele estudou… vai que lá você encontra alguma pista…

— Obrigada, amiga.

Pilar entrou na enfermaria com os olhos vermelhos e inchados. Enfim, mesmo num dia como aquele, ainda cabia uma pontinha de esperança, e ela precisava se agarrar às notícias boas. No final do quarto a enfermeira acabava de trocar o curativo e o paciente fazia uma cara de alivio enquanto ela colocava todo material de tortura de volta na bandejinha de inox. Pilar aproximou-se e os dois trocam um demorado e intenso olhar.

— Obrigado! Ele falou, enquanto abria um largo e branco sorriso.

— Mas, porque, o obrigado?

— Você cuidou de mim todos esses dias…

Pilar sorriu desarmada, não esperava simpatia vinda logo dele, não depois da conversa que tiveram no Cantagalo e seu desaparecimento deixando-a sozinha e desnorteada.

— Mas, eu não entendo como você veio parar aqui e que coincidência! Porque você diz que eu cuidei de você? E esse machucado? O que aconteceu contigo?

— Ei, devagar, eu acabei de sair do coma… e pelo que as enfermeiras me disseram você vinha me visitar todos os dias… e… quando eu ia finalmente te agradecer, você desmaiou!

— Você não é o Pedro? Pilar ficou pálida e assustada!

— Não! Sim! Eu sou ele, mas sou o seu irmão!

— Meu irmão? Não! Não é!

— Não! Não o seu irmão, sou o irmão do Pedro! Quer dizer, sou o Pedro, mas só que sou o seu irmão… digo, o do Pedro!

— Ah, meu Deus! Vocês são…

— Gêmeos…  isso, somos gêmeos!

— E quem é Ana?


Confira Encontros e desencontros: A busca de Pilar – Capítulo VII

Imagem via Pixabay

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Sobre o autor

Joana Cabral

Joana Cabral

Joana Cabral é contista e roteirista de teatro. Autora dos livros Fragmentos do Desencontro, Pedro e João Editora, São Paulo, 2010 e Culpas e Cólicas, Faces Editora, Rio de Janeiro, 2013. Participou da “IV Antologia de Contos de Autores Contemporâneos”. Joana recebeu o prêmio “Osman Lins de Contos – 2005”