Encontros e desencontros

Encontros e desencontros: A busca de Pilar – Capítulo VIII

Joana Cabral
Escrito por Joana Cabral
Capítulo VIII

Abrir os olhos e ver-se no escuro total. Pedro já estava acostumado a ouvir o despertador e ser arrancado do fundo do seu tão querido estágio REM. Somente a luz da tela do celular iluminando o teto do quarto e o sono tranquilo e profundo de Letícia a seu lado.

Como um sonâmbulo parte tateando em direção ao banheiro e só acorda após o vigoroso e quente banho. Essa era a sua rotina, nunca gostou de acordar cedo, mas ao assumir a direção do departamento de psicologia na universidade, pagava um pequeno preço em troca  de toda tranquilidade que o novo cargo trouxe para a sua vida. Ainda mais depois que Letícia engravidou do segundo filho. Após o banho  partiu para o campus. Há pelo menos dois anos fazia o percurso até o trabalho quase  antes da cidade acordar. Era a garantia de que não ficaria preso no trânsito e que estaria na universidade antes de toda equipe.

Pedro gostava de seu trabalho que agarrou com unhas e dentes após ter emendado o mestrado e iniciar o doutorado. Apesar de ainda estava estudando, sua dedicação e inteligência conseguiram superar colegas com muito mais experiência do que ele.

O céu já migrava do avermelhado para o azul total quando entrou na Linha Vermelha. Pedro passava mentalmente a agenda da manhã; algumas providências imediatas e telefonemas para resolver problemas com os estagiários. Procurava os óculos escuros necessários para se proteger do sol rasante enquanto admirava o brilho sobre as águas da Baia da Guanabara. No exato momento em que fez a curva para entrar no campus, a voz cristalina de Caetano Veloso inundou o carro…

“Gosto muito de te ver, leãozinho

Caminhando sob o sol

Gosto muito de você, leãozinho”

…e a estrofe tão distante quanto conhecida o pegou pelo pensamento arremessando em um lugar onde costumava evitar sequer lembrar, mas que pouco a pouco se infiltrava, mesmo à sua revelia.

À sua frente vinha a imagem da irmã, que não via há mais de dez anos. A música o conduzia para o primeiro ano escolar, com apenas seis anos, participaram de uma apresentação e os dois, vestidos de leão, cantaram a música para os pais. Pedro nunca mais ouvira a canção, mas a lembrança de sua irmã sentada na janela do quarto estudando insistia em acompanhá-lo  desde o dia em que saíra de casa. Apesar de todo esforço para não pensar nela…

Pedro sentia-se como se fosse uma extensão do corpo e da personalidade de Pilar. Desde que se entendia por gente a seguia por todo lado. Eram dela as ideias para as brincadeiras, era dela a escolha dos amigos, era ela quem decidia a hora de dormirem e até o sonho que teriam. Pedro lembrava-se com clareza de que quando Pilar falava “hoje vamos sonhar com  nossas férias”, era certo que ele se embrenhava em visões e cheiros de pãozinho de queijo e leite ordenhado de manhã cedinho no sitio que visitaram com a escola. O que era um pequeno incômodo de infância, tornou-se um questão de honra na adolescência e finalmente transformou-se em uma raiva cega e demolidora quando começaram as comparações. Era urgente para Pedro ter um referencial próprio. Quanto mais os hormônios definiam seu corpo e sua voz, menos conseguia viver com a sua irmã como ponto de partida e de chegada em todos os passos que tivesse que dar!

E já que não era o certo mesmo, resolveu levar isso a sério! Logo fez amizade com a turma da bagunça. Começou a matar aulas, brigar na rua, beber e fumar. Desafiar o que era convencionalmente visto como o “certo”, de alguma forma era conseguir uma espécie de individualidade! Se por algum acaso agia de forma contrária ao que sua irmã faria, nesse momento tornava-se muito mais Pedro e a adrenalina de ser ele mesmo era um prazer sem igual!

Só que era muito difícil sustentar o novo Pedro, que surgia com força, dentro de sua casa, embaixo das críticas e cobranças do pai e da escola. E a ideia de fugir, de ser plenamente ele mesmo, foi tomando conta de todo o seu desejo até não conseguir suportar. Pedro não cabia mais no ambiente em que vivia. Fazer as malas e cair no mundo era mais do que uma tentação; era uma realização!

O plano de Pedro e seus amigos, era ficar alguns dias no apartamento do primo de um deles em São Paulo e depois de encontrarem empregos, alugariam um local para morar. Era decretado o fim da obrigatoriedade de estudar e o começo da vida livre.

Ou assim pensava.

Nos primeiros dias logo chegou à conclusão de que não conseguiria um emprego ganhando muito como imaginou, e seus critérios de escolha foram descendo dia a dia: primeiro descobriu que não trabalharia em um escritório, em seguida, que também não seria em loja de roupas ou sapatos, com mais uns dias, que igualmente não poderia ser em restaurantes. Restaram poucas possibilidades e Pedro já cogitava uma vaga de faxineiro que estava no anúncio do jornal. Os amigos igualmente foram desistindo e um a um pegaram a estrada de volta para Teresópolis. Mas Pedro não queria render-se ao fracasso. Era vital demais que conseguisse ser livre e independente! O orgulho ainda latejava forte em seu desejo de fazer algo por si mesmo e sem a influência de ninguém!

Com os amigos voltando Pedro tinha um problema, eles contariam onde estava e não tardaria para o seu pai bater à porta para resgatá-lo de volta. E antes que o último da turma partisse, fechou com um distribuidor de verduras da CEAGESP em troca por não assinar a carteira de trabalho e abrir mão do fundo de garantia e outros direitos, negociou um colchonete no chão dos fundos do armazém.

Trabalhou com afinco e conseguiu sobreviver por alguns meses, mas pouco a pouco percebeu que ali não iria para lugar algum. O dinheiro que ganhava mal sustentava seus gastos pessoais mais básicos. Por isso mesmo fez amizade com um caminhoneiro e partiu para a estrada em busca de outras oportunidades.

Em  companhia de seu novo amigo carregou e descarregou muitas vezes o caminhão! Comia e dormia na beira da estrada e fez inúmeras viagens pelo sudeste e nordeste. Era extremamente feliz na estrada e o Sr. Domingos, dono do caminhão, resolveu dar uma chance ao garoto e no final de uma viagem para o sul do país, deixou Pedro empregado na churrascaria de seu cunhado na entrada do Rio de Janeiro.

Ele adaptou-se rápido ao trabalho. Gostava de atender às mesas e não se preocupava em ficar algum tempo depois que o restaurante fechava ajudando na faxina. Pedro conquistou a todos no restaurante e, principalmente, a filha do proprietário que nos finais de semana dava uma ajuda no caixa. Letícia, que, após conhecer o garçom, não saia mais do restaurante. Passava quase todas as tardes no escritório do pai estudando, mas sem perder um movimento de Pedro no salão.

Não demoraram para namorar e como ela estava estudando para o vestibular, eles passavam quase todo tempo que estavam juntos revirando livros e repassando cálculos matemáticos! Pedro nunca imaginou que poderia ser divertido estudar. A facilidade com que apreendia o conteúdo que liam o impressionava e impulsionava a querer mais… e no final do ano, a churrascaria tinha dois universitários! Uma no caixa, que agora fazia questão de trabalhar quase todos os dias e o outro viajando da cozinha para salão.

Pedro e Letícia escolheram cursos diferentes e estudavam em extremos opostos da cidade, e mesmo com toda confusão de estudar e trabalhar, o relacionamento entre os dois se consolidava cada dias mais!

No final de cinco anos em que tinha fugido de casa, ele já estava formado e estagiando numa empresa multinacional. E assim que ambos estavam formados e com a vida mais ou menos no lugar, uma gravidez precipitou o casamento, mas não impediu que Pedro seguisse com o  mestrado.

Ele não reclamava de nada em suas escolhas. No fundo sabia que se não tivesse saído da casa do pai, dificilmente teria a vida que tanto gostava e muito menos Letícia, seu mundo! Mas sabia que jamais seria completo sem recuperar os laços com a família. No começo era o orgulho que impedia de os procurar. Pedro desejava fortemente que a iniciativa fosse de seu pai, para que não precisasse escolher entre este sentimento e a saudade! Depois foi a vergonha, por fim, apossado por um comodismo muito forte, mal  pensava no assunto. E seguia como parte de um jogo de esconde-esconde. Chegou a ver o seu rosto em um cartaz de desaparecidos, o que fez sentir uma leve e passageira alegria, mas mesmo assim, decidiu continuar invisível para o mundo do pai e da irmã.

Mas foi o anúncio do segundo filho que tocou no nervo tão resguardado, mas que ele via a cada dia um pouco mais exposto. Algo dizia que seria uma menina. E como gostaria de chamá-la Pilar! A presença da irmã avançava como o rompimento de uma represa. De repente não tinha mais um dia em que não pensava nela… e no pai. Sentia a sua presença como se ela tivesse por perto, e o cheiro de seus cabelos entravam pelos corredores da casa ou pela janela fazendo, muitas vezes, com que debruçasse para fora do apartamento na esperança de que ela estivesse no térreo olhando para cima.

Como estaria Pilar? Perguntava-se muitas vezes. Pensava que estaria formada e com uma carreira promissora, já que fazia tudo tão certinho e era tão determinada! A vontade de procurá-los acendia e apagava como um barco à deriva na noite do mar.

— Professor, o reitor quer falar com o senhor. É urgente!

A bolha do tempo estourou com aquelas palavras e todo morno que conservava o cheiro das lembranças sumiram leve como o ar. Pedro levou alguns segundos para recuperar a bússola do dia e perceber finalmente onde os seu cérebro automático o havia levado! Bastou um clique no arquivo certo e ele desligou o automático e recomeçou a orquestrar o departamento e sua vida!

***

Particularmente cansado ao final da jornada de quase dez horas de trabalho, novamente atravessou a cidade de volta para a sua casa, chegando a tempo de dar um beijo em Lucas que já estava se preparando para dormir. Jantou com a esposa e repassou os acontecimentos mais importantes do dia.

Não via a hora de se deitar e logo que saiu do banho agarrou a biografia que estava lendo para em seguida abandonar-se na cama. O paraíso talvez fosse um lugar macio com direito a ler infinitas horas sem sentir o peso do dia seguinte batendo à porta da noite. Ouvia com prazer o ir e vir da esposa enquanto ele aos poucos entrava na história. Letícia era prática e somente ia para a cama depois que tudo estivesse pronto para o dia seguinte: roupas, sapato, marmita e a mochila de Lucas. Depois de tudo arrumado, passava uns bons minutos na ducha e somente quando deitava é que ele abandonava o livro.

Mas naquele dia estava difícil concentrar-se, o cansaço insistia em dar um curto circuito em sua mente e Pedro se pegava com a cabeça despencando dos ombros a toda hora. Esfregava os olhos, respirava fundo e recomeçava a leitura!

Estava assim, na luta contra o sono, no momento em que o som do interfone rompeu o ar gritando por toda casa. O susto foi tão forte que fez o coração disparar! Quem seria naquela hora? Não que estivesse muito tarde, mas não costumava receber visitas sem ter combinado e vendedor também não seria! Talvez o síndico com algum problema, mas neste caso, ele resolveria primeiramente por telefone! Não ouviu a mulher falar ao interfone, mas sabia que alguém subia pelo barulho do portão.

Levantou-se meio tonto e vestiu o roupão. Calçava os chinelos no momento em que a campainha tocou. Quem seria? Estava extremamente chateado por ter que se levantar e mais ainda por ter que resolver algum problema na hora em que só queria esquecer o mundo!

— Pedro, é para você! A voz de Letícia saiu fina e engasgada!

O chamado ecoou por toda a casa acompanhado de uma corrente de ar que penetrou pelo quarto trazendo uma vibração estranha. Algo maior do que ele estava ali, um apelo do universo, um arrepio de premonição agarrando-o enquanto andava até a sala.

Ondas de energia tão forte que chegava a sentir a resistência no ar. Avançou.

Primeiro entrou o som, inconfundível! Era a voz do conforto e da dor, tantas vezes dirigida a ele, tantas vezes buscando-o na assombração da distância!

Em seguida a imagem.

O ar e o tempo na sala estavam condensados. E ela. Pilar. O outro lado dele, a versão feminina de sua imagem. Idêntica! Talvez tivessem mais pessoas na sala, mas todo o mundo agora se resumia em um abraço. A ausência do vazio contornando a existência e o reencontro impondo-se para quem pudesse suportar!

— Pilar, minha irmã!

— Pedro. Finalmente!


Confira Encontros e desencontros: A busca de Pilar – Capítulo IX

Imagem via Pixabay

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Sobre o autor

Joana Cabral

Joana Cabral

Joana Cabral é contista e roteirista de teatro. Autora dos livros Fragmentos do Desencontro, Pedro e João Editora, São Paulo, 2010 e Culpas e Cólicas, Faces Editora, Rio de Janeiro, 2013. Participou da “IV Antologia de Contos de Autores Contemporâneos”. Joana recebeu o prêmio “Osman Lins de Contos – 2005”