Acessibilidade em Portugal: Algo tão simples como ir trabalhar, ir ao cinema, ir jantar, dar um simples passeio. Só alguns o podem fazer.
Morei 25 anos no centro de Lisboa e, durante uma década, fi-lo sentada numa cadeira de rodas. Foram 10 anos em que, para usufruir da minha cidade, precisei quase sempre de contar com a ajuda de terceiros. Dos 15 aos 25, vali-me da força, de braços e de vontade, de quem me rodeava, para poder ter uma vida minimamente normal.
Aos 25 anos mudei-me para perto do mar. Nova cidade, mas velhos problemas. E não estou sozinha. Todos os dias oiço as mesmas queixas, vindas de quem vive a Norte ou a Sul do nosso país.
Mas a mobilidade condicionada é muito mais que uma cadeira de rodas. É a mãe e o pai que se deslocam com carrinho de bebé, é a amiga que parte uma perna, é a tia operada ao joanete, é o avô que, velhote, já não vai lá sem a sua bengala.
O nosso país está pouco preparado para situações destas. E, mais grave do que isso, está-se praticamente nas tintas para elas.
Não querendo ser injusta (bem sei que temos assistido a alguns progressos, em particular nos últimos anos), a verdade é que não vejo uma política de aposta contínua no que diz respeito às situações, temporárias ou não, de mobilidade condicionada. E não, não pode ser o suficiente termos quatro ou cinco avenidas com passeios mais cómodos. Precisamos de transportes adaptados, de estabelecimentos comerciais acessíveis. E, estes, continuam a ser muito poucos.
Perguntar-me-ão: mas existe alguma lei que regule estes temas? Existe. Mas ninguém fiscaliza, por isso, tem sido praticamente inútil.
E o maior problema? Falta visão. Feitas as contas, 10% da população portuguesa tem algum tipo de limitação. Estamos, portanto, a falar de 1 milhão de pessoas que estão tantas vezes impedidas de trabalhar, ir ao cinema, jantar fora ou dar um simples passeio. São muitas. Mas, se juntarmos a isso uma gravidez, um carrinho de bebé, uma muleta ou uma bengala, o número muda e de forma drástica.
Enquanto o tema da mobilidade condicionada for encarado como uma questão que diz respeito apenas a uma minoria, não iremos longe. Mas quando passarmos todos a exigir condições universais, aí sim, talvez alguma coisa mude, e talvez passemos a ser um país verdadeiramente inclusivo.
Até mais!
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Gostaria de nos acrescentar alguma informação ou nos alertar quanto a algum possível erro? Envie um e-mail a [email protected] | Conteúdo – Imagem via autora | Publicada em 29/12/2017.

